Kôl Shofar (Voz do Shofar)

 

O Shofar é um instrumento muito importante profeticamente falando, segundo relatos bíblicos, esteve presente em momentos decisivos na história de Israel (não confundir com a “trombeta de prata” citada em B`midbar/Números 10).

A primeira fez que se faz menção ao Shofar nas escrituras é no evento do monte Sinai: “Ao amanhecer do terceiro dia, houve trovões e relâmpagos, e uma espessa nuvem sobre o monte, e um forte clamor de trombeta, de maneira que todo o povo que estava no arraial se estremeceu” (Shemôt/Êxodo 19:16).
A palavra que foi traduzida por ‘Trombeta’ nas versões cristãs das Escrituras é a palavra hebraica Shofar (plural shofarim).
A matéria prima usada na confecção do mesmo é o “Shefer”, que pode ser traduzido literalmente como “Chifre”. Por causa do episódio do bezerro de ouro tradicionalmente utiliza-se chifres de carneiro, nunca de boi. Atualmente usa-se também chifre de antílope africano na confecção do Shofar Iemenita (utilizado por judeus do Iêmen).
De acordo com o relato do ocorrido no monte Sinai a Voz do Shofar, na verdade, revela a voz de Elohim (voz de D’us), (Êxodo 19:19). A palavra traduzida como clamor ou sonido, no original hebraico significa “voz”. O livro de Apocalipse confirma essa ideia ao dizer: “Achei-me em espírito, no dia do SENHOR, e ouvi, por detrás de mim, grande voz, como de trombeta (Shofar)...” - Ap. 1:10.
Através de passagens como estas podemos observar que existe uma relação entre a voz do Shofar e a voz de ADONAI.
Foi aos pés do monte Sinai que a humanidade, através de Moisés, recebeu de D`us a porção fundamental das Escrituras que hoje tem nas mãos (fundamental pois, a Torá, é a base de toda a Bíblia). Naquele dia o povo de Israel estava prestes a ouvir, pela primeira vez, a voz de ADONAI. Exatamente nesse dia, ao som dos Shofarim celestiais, foram anunciadas as palavras da aliança do Nosso D’us.
De acordo com relatos bíblicos o Shofar era usado, em determinadas ocasiões, com propósitos definidos, por exemplo: anúncio de recomeço e de restituição; convocação da comunidade; anúncio e coroação de um novo rei; chamado ao arrependimento coletivo; para invocar o socorro de ADONAI em tempos de guerra e grandes conquistas; chamado à ressurreição e anúncio de redenção e juízo.
No jubileu a voz do Shofar era anúncio de recomeço e de restituição daquilo que se perdeu.
“Contarás sete semanas de anos, sete vezes sete anos, de maneira que os dias das sete semanas de anos te serão quarenta e nove anos. Então no mês sétimo, aos dez do mês, farás passar a Trombeta (Shofar) do Jubileu, no Dia da Expiação (Yom Kipur), fareis passar a trombeta por toda a vossa terra” - Vayikrá/Levítico 25.8-9.
Nos tempos antigos, segundo a Bíblia, o Shofar era utilizado também para anunciar o início dos meses (Rosh Chodesh - Salmo 81:3-4) e convocar o povo para as assembleias, especialmente na Festa de Yom Teruá (dia do toque), conhecido como Rosh HaShaná (Ano Novo Judaico), quando o povo era convocado para celebrar a entrada do 7º mês (Tishrei).
“Tocai o Shofar em Sião, santificai um jejum, convocai uma assembléia solene” (Joel 2.15).
Yeshua disse que na sua volta um Grande Shofar (Shofar Gadol) será tocado, enquanto seus anjos ajuntam os escolhidos que estão espalhados pelo mundo: “E ele enviará os seus anjos com rijo clamor de Trombeta (Shofar), os quais ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus” - Mateus 24.31.
Antigamente em Israel tocava-se o Shofar também quando um novo rei era coroado (I Reis 1.38-40).
Sabemos que na volta gloriosa do Rei Messias, Shofarim celestiais serão tocados para anunciar a coquista dos reinos da terra: “E o sétimo anjo tocou a sua trombeta, e houve no céu grandes vozes, que diziam: Os reinos do mundo vieram a ser de nosso Senhor e do seu Ungido, e ele reinará para todo o sempre” - Apocalipse 11:15.
O Shofar era utilizado também para chamado coletivo ao arrependimento, quando o povo estava vivendo um período de acentuada transgressão: Joel 2:12-15.
Um dos pontos mais interessante a respeito do Shofar era a sua utilização como instrumento de conquista em momentos de guerra, quando a presença e socorro de ADONAI era imprescindível.
Na Brit HaDashá, especificamente no livro de Apocalipse, vemos um paralelo impressionante entre a conquista da terra prometida (Canaã), especificamente em Jericó, pelos filhos de Israel, sob a liderança de Yehoshua (Josué) e a conquista dos reinos do mundo, com a intervenção direta dos anjos de ADONAI, sob a liderança do Grande Rei, Yeshua HaMashiach, que trará a justiça e o domínio de D`us sobre a terra.
Segundo o relato bíblico (Josué 6:1-14), não foi preciso, nem mesmo, o uso da força física, esta ficou a cargo do exército celestial que foi invocada ao som dos Shofarim. Nesses dois relatos o simbolismo do Shofar toma um sentido ainda mais profundo, mostrando-nos que o “Kol Shofar” (Voz do Shofar) não é instrumento apenas de conquista, é também de juízo e redenção.
Na sequência de textos a seguir, para uma melhor compreensão, é preciso que o leitor preste bastante atenção, principalmente nos detalhes, pois existe uma grande relação entre eles.
(Josué 6:3-4) - Vós, pois, todos os homens de guerra, rodeareis a cidade, cercando-a uma vez; assim fareis por seis dias; e sete sacerdotes levarão sete trombetas de chifres de carneiros adiante da arca, e no sétimo dia rodeareis a cidade sete vezes, e os sacerdotes tocarão as trombetas.
(Apocalipse. 8:2) E vi os sete anjos, que estavam diante de Deus, e foram-lhes dadas sete trombetas.
Na sequência desse relato, vemos que, em Jericó, as seis primeiras trombetas são tocadas, podemos assim dizer, de modo semelhante e dentro de um mesmo padrão de acontecimentos, porém, a sétima trombeta segue um padrão diferente das demais; o mesmo acontece no relato do Apocalipse:
(Apocalipse 8:7 até 9:13) E o primeiro anjo tocou a sua trombeta..., e tocou o sexto anjo a sua trombeta...
(Apocalipse 10:7) Mas nos dias da voz do sétimo anjo, quando tocar a sua trombeta, se cumprirá o segredo de Deus, como anunciou aos profetas, seus servos.
(Josué 6:15-16) E sucedeu que, ao sétimo dia, madrugaram ao subir da alva, e da mesma maneira rodearam a cidade, sete vezes; naquele dia somente rodearam a cidade sete vezes. E sucedeu que, tocando os sacerdotes pela sétima vez as trombetas, disse Josué ao povo: Gritai, porque o SENHOR vos tem dado a cidade.
(Apocalipse 11:15) E o sétimo anjo tocou a sua trombeta, e houve no céu grandes vozes, que diziam: Os reinos do mundo vieram a ser de nosso SENHOR e do seu Messias, e ele reinará para todo o sempre.
É preciso aqui prestar muita atenção nos detalhes dos textos. Ambas as expressões, “gritai”, de Josué 16:16 e “grande vozes”, de Apocalipse 11:15 têm o mesmo significado e contém um sentido de júbilo, ou seja, comemoração e alegria pela vitória.
Josué 6:17 - Porém a cidade será anátema ao SENHOR, ela e tudo quanto houver nela; somente a prostituta Raabe viverá; ela e todos os que com ela estiverem em casa; porquanto escondeu os mensageiros que enviamos.
(Mateus 13:49) - Assim será na consumação dos séculos: virão os anjos, e separarão os maus de entre os justos.
(Mateus 24:31) - E ele enviará os seus anjos com rijo clamor de trombeta, os quais ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus.
Josué 6:25 - Assim deu Josué vida à prostituta Raabe e à família de seu pai, e a tudo quanto tinha; e habitou no meio de Israel até ao dia de hoje...
Apocalipse 7:9 - Depois destas coisas olhei, e eis aqui uma multidão, a qual ninguém podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas, que estavam diante do trono, e perante o Cordeiro, trajando vestes brancas e com palmas em suas mãos.
Apocalipse 5:9-10 - E cantavam um novo cântico, dizendo: Digno és [O Cordeiro], de tomar o livro, e de abrir os seus selos; porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda a tribo, e língua, e povo, e nação, e para o nosso Deus os fizeste reis e sacerdotes; e eles reinarão sobre a terra.
(Josué 6:24) - Porém a cidade e tudo quanto havia nela queimaram a fogo; tão somente a prata, e o ouro, e os vasos de metal e de ferro, deram para o tesouro da casa do SENHOR.
(Mateus 13:50) E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes.
Aqui cabe citar o Salmo 92 que diz: “Quando o ímpio crescer como a erva, e quando florescerem todos os que praticam a iniquidade, é que serão destruídos perpetuamente; mas, ...o justo florescerá como a palmeira; crescerá como o cedro no Líbano”.
O Kol Shofar é também um chamado à ressurreição: “Num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta (Shofar); porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós [os que estiverem vivos] seremos transformados” - I Coríntios 15:52.
Por que tantos simbolismos envolvendo o Shofar, que como podemos ver em algumas passagens Bíblicas será utilizado, até mesmo, para chamar os mortos à vida?
Não que um simples chifre de carneiro possa ter algum poder em si mesmo, não é isso! Mas, é possível que, sendo um instrumento de sopro, seja sombra (símbolo) do sopro de vida que um dia foi soprado nas narinas do primeiro homem, Adam (Adão). O vento (Ruach) que vem com a Voz Criadora do Eterno, aquela que, na viração do dia, falava com nossos primeiros pais no Éden.
Está escrito em Hebreus 8:5 que muitas das coisas que foram reveladas a Moshé (Moisés) no monte Sinai eram, de fato, sombras de realidades maiores no mundo celestial.
A Tradição judaica faz uso de três toques diferentes do Shofar, e estes são ministrados nas sinagogas no dia do Yom Teruá (dia do toque), também conhecido como Rosh HaShaná (ano novo judaico).
O último dos três toques é um toque prolongado (Tekiá Guedolá - grande toque), chamado também de “Shofar Gadol” (Grande Shofar). Isso nos lembra às palavras do profeta Isaias que dizem: “E será naquele dia que se tocará uma grande trombeta (Shofar Gadol), e os que andavam perdidos pela terra da Assíria, e os que foram desterrados para a terra do Egito, tornarão a vir, e adorarão a Adonai no monte santo em Jerusalém” - Isaías 27.13.
Estas palavras de Isaias, por sua vez, nos lembram as de Yeshua: “E ele enviará os seus anjos com rijo clamor de trombeta (Shofar Gadol), os quais ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus” - (Mateus 24:31).
Essa relação do Shofar com a chegada do Messias é um conceito tradicionalmente aceito por muitas comunidades judaicas não messiânicas. A diferença está apenas no fato de que, para elas, o Messias ainda virá e ele não é Yeshua; enquanto que, para as comunidades messiânicas, Ele já veio, é Yeshua, e no tempo determinado voltará.
Como exemplo disso cito aqui um trecho do texto “O Shofar” extraído do site www.chabad.org.br - acesso em 08/05/2012: “A Tekiyá Guedolá - o último toque longo do shofar - soa como uma nota mais alegre e lembra o grande dia, quando o grande shofar será tocado para reunir do exílio todo o povo de Israel, com a chegada de Mashiach”.
No verso 36 de Mateus 24, Yeshua disse que “a respeito daquele dia e hora ninguém sabe”. É possível que essa citação do Messias esteja fazendo alusão ao tempo da festa do Yom Teruá. Por quê?
Sabemos, através das palavras do próprio Yeshua, que a sua vinda será manifesta ao som de um grande Shofar. Sabemos também que antigamente era difícil saber exatamente quando a lua nova apareceria e, consequentemente, quando um novo mês começava. Por esse motivo existiam as sentinelas, pessoas destacadas para observar esse acontecimento.
A festa do Yom Teruá, conhecida na terminologia cristã como “festa do toque da trombeta”, era imprevisível, dependia-se do toque do Shofar para determinar o dia e a hora exatos da sua chegada. Vemos assim que existe uma relação estreita entre o sétimo mês judaico e a vinda (volta) do Messias. A frase “mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe” pode ser uma referência a essa festa.
Você poderá ler mais detalhadamente a respeito da correlação entre as festas do sétimo mês e a volta do Messias, nos artigos sobre Yom Teruá, Yom Kipur e Sukôt, no Menu “Festas Bíblico/Judaicas” deste site.
Quase todas as citações da Brit Chadashá (NT) sobre o Shofar estão diretamente conectadas à volta do Messias. Nesse contexto, como instrumento de anúncio e proclamação, no tempo da restauração de todas as coisas, bradará, não somente na terra de Israel, mas, de modo a ser ouvido por todas as nações da terra. “Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem; e todas as tribos da terra se lamentarão, e verão o Filho do homem, vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória” - Mateus 24:30.
A Tradição judaica faz uso de três toques diferentes do Shofar, e estes são ministrados nas sinagogas no Yom Teruá (dia do toque), também conhecido como Rosh HaShaná (ano novo judaico), são eles:
-Tekiá - um som contínuo, como um longo suspiro;
-Shevarim - três sons interrompidos, como soluços;
-Teruá - nove (ou mais) sons curtos e contínuos, como suspiros entrecortados.
O som de cada grupo é repetido três vezes, totalizando trinta toques.
O último toque é um som longo, Tekiá Guedolá (grande toque). Este som, segundo a tradição judaica, representa um grito de triunfo e alegria.
No Judaísmo tradicional, durante o serviço de Yom Teruá - Rosh Hashaná, o Shofar é tocado cem vezes, ou seja, cada som acima mencionado é tocado três vezes e isto é repetido três vezes durante o serviço, totalizando noventa toques; no final, toca-se mais uma vez um grupo de dez toques, completando assim os cem).
Aquele que deseja cumprir o mandamento de tocar o Shofar deve, além de entender muito bem o que está fazendo, adquirir a técnica necessária para toca-lo bem, respeitar o ciclo estabelecido por D`us; buscar discernimento espiritual, ser aberto à revelação divina e está atento à eventuais exceções, caso surjam momentos em que se faça necessário e adequado tocar o Shofar. Também é preciso reverência; o zelo, sem legalismos, é extremamente importante em qualquer coisa que se faça para o Eterno Adonai e Seu Messias.


Escrito por José Edivaldo